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protocolo · intermediário/avançado · roteamento interno

OSPF — Open Shortest Path First

Do fundamento ao nível especialista — o IGP link-state mais usado em backbone de ISP, com boas práticas reais de operadoras brasileiras e o padrão internacional por trás de cada decisão de projeto.

RFC 2328 RFC 5340 (OSPFv3) Multi-fabricante

Nesta página

1. Nível Básico — fundamentos 2. Nível Intermediário — protocolo em detalhe 3. Nível Avançado — áreas especiais e projeto 4. Boas práticas de ISP (12 recomendações) 5. Segurança e ajuste fino 6. Por que OSPF ainda é relevante 7. Configuração multi-fabricante 8. Comandos de verificação e teste 9. Indicadores de operação (KPIs) 10. Exercícios práticos (com gabarito) 11. Troubleshooting 12. Glossário 13. Referências

1. Nível Básico — Fundamentos Básico

Pré-requisito: nenhum além de entender endereço IP e o conceito geral de rota. Se você já leu a página de BGP, vai reconhecer a distinção IGP/EGP da seção 1.2 de lá.

1.1 O que é OSPF

OSPF (Open Shortest Path First) é um protocolo de roteamento interno (IGP — roteia dentro de um único Sistema Autônomo, ao contrário do BGP) da família link-state. "Open" porque é um padrão aberto, não proprietário — publicado pela IETF, hoje na versão 2 pra IPv4 (RFC 2328) e versão 3 pra IPv6 (RFC 5340). "Shortest Path First" porque usa o algoritmo de Dijkstra pra calcular o caminho de menor custo até cada destino.

1.2 Link-state vs. distance-vector

Existem duas famílias de protocolo de roteamento dinâmico interno:

  • Distance-vector (ex: RIP) — cada roteador só conhece "distância" (número de saltos) até cada destino, informada por vizinhos diretos, sem mapa real da topologia. Convergência lenta, prevenção de loop frágil (depende de mecanismos como split-horizon e holddown timers), limite de 15 saltos no RIP.
  • Link-state (OSPF, IS-IS) — cada roteador monta um mapa completo da topologia daquela área, através da troca de anúncios de estado de enlace (LSA). A partir desse mapa, cada roteador calcula independentemente a árvore de caminhos mais curtos (SPT) com o algoritmo de Dijkstra. Convergência muito mais rápida, sem limite prático de diâmetro de rede, e prevenção de loop naturalmente mais robusta — o roteador conhece a topologia inteira, não confia em "boato" de vizinho.

Analogia: distance-vector é como perguntar pra cada vizinho "quantas casas até o mercado?" e confiar na resposta. Link-state é como ter o mapa completo do bairro e calcular você mesmo a rota mais curta.

1.3 Vizinhança e adjacência

Antes de trocar qualquer informação de rota, dois roteadores OSPF precisam formar uma adjacência — um processo com pré-requisitos verificados (mesma área, mesma máscara de sub-rede, mesmos timers Hello/Dead, mesma autenticação, se configurada). Só depois de adjacentes é que trocam LSAs. Isso é bem diferente do RIP, que nem tem conceito real de vizinhança — só transmite a tabela de rotas periodicamente pra quem estiver ouvindo.

1.4 Custo (métrica) e banda de referência

A métrica do OSPF é o Cost, calculado por padrão como:

Custo = Banda de Referência (bps) / Banda da Interface (bps)

⚠️ Isso já é o primeiro erro clássico de projeto — ver seção 4 (boas práticas), item da banda de referência.

1.5 Quando usar OSPF (e quando não)

OSPF roteia o interior do seu AS — links internos, loopbacks dos roteadores, conectividade pra sessões iBGP. Rotas de clientes e rotas externas (trânsito, peering) são responsabilidade do BGP, não do OSPF — misturar as duas coisas é o erro de projeto mais citado por operadores experientes (ver seção 4.1).

2. Nível Intermediário — O protocolo em detalhe Intermediário

Pré-requisito: seção 1.

2.1 Tipos de LSA

Tipo Nome Origem / Escopo
Type 1Router LSATodo roteador — descreve suas interfaces e vizinhos. Só dentro da área.
Type 2Network LSAGerado só pelo DR de cada rede broadcast/NBMA. Só dentro da área.
Type 3Summary LSAGerado pelo ABR — resume redes de uma área pro backbone (e vice-versa)
Type 4Summary ASBR LSAGerado pelo ABR — informa como alcançar um ASBR de outra área
Type 5AS External LSAGerado pelo ASBR — rota redistribuída de outro protocolo/domínio. Inunda todo o AS (exceto áreas Stub/NSSA)
Type 7NSSA External LSAGerado por ASBR dentro de área NSSA — convertido em Type 5 pelo ABR ao sair da área

2.2 Tipos de rede OSPF (Network Types)

Tipo DR/BDR? Uso típico
BroadcastSim, obrigatórioPadrão em interface Ethernet — mas só faz sentido de verdade quando 3+ roteadores dividem a mesma sub-rede
Point-to-pointNãoEnlace que conecta exatamente 2 roteadores — mesmo sendo Ethernet/fibra, forçar esse tipo tem benefício real (ver seção 4)
NBMADepende do modoLegado (Frame Relay, ATM, X.25) — irrelevante em rede 100% Ethernet/fibra

2.3 DR e BDR

Em redes do tipo Broadcast/NBMA com múltiplos roteadores, formar adjacência completa entre todos (full-mesh) geraria tráfego de LSA excessivo. O OSPF elege um DR (Designated Router) — e um BDR (Backup) — pra centralizar a distribuição de LSA naquele segmento: os demais roteadores formam adjacência completa só com o DR/BDR, não uns com os outros. Eleição por prioridade configurável (maior vence), desempate pelo maior Router ID.

2.4 Tipos de roteador

TipoDefinição
InternoTodas as interfaces na mesma área
BackboneRoteador interno, mas todas as interfaces na Área 0
ABRArea Border Router — pelo menos 1 interface na Área 0 e 1+ em outra(s) área(s)
ASBRAutonomous System Boundary Router — redistribui rotas externas (outro protocolo/domínio) pro OSPF

Nota importante: no OSPF, área é definida por interface, não por roteador inteiro (diferente do IS-IS) — um mesmo roteador pode ter interfaces em áreas diferentes simultaneamente (é exatamente o que faz dele um ABR).

3. Nível Avançado — Áreas especiais e projeto Avançado

Pré-requisito: seções 1 e 2.

3.1 Tipos de área — tabela completa

Tipo LSAs bloqueados Quando usar
RegularNenhumPadrão — todos os LSAs permitidos
StubType 5Roteador de borda remota, 1 único link pro resto da rede, muitas rotas externas na Área 0 que não precisam entrar ali (recebe rota default do ABR)
NSSAType 5 (usa Type 7 internamente)Igual Stub, mas a área precisa ter seu próprio ASBR redistribuindo rota externa local
Totally StubbyType 3, 4 e 5Igual Stub, mas ainda mais agressivo — só rota default entra, nem resumo de outras áreas
Totally NSSAType 3 e 5 (usa Type 7 internamente)Combinação das duas restrições acima

Área Backbone (Área 0) nunca pode ser Stub/NSSA/Totally — é sempre Regular por definição, e toda outra área precisa se conectar diretamente a ela (exceto via Virtual Link, ver 3.3).

3.2 Sumarização de rotas — só no ABR e no ASBR

Diferente de protocolos mais flexíveis, o OSPF só permite sumarizar rota em dois pontos específicos: no ABR (sumarização de rotas nativas de uma área ao gerar o Type 3 pra Área 0) e no ASBR (sumarização de rotas externas no momento da redistribuição). Não existe sumarização "dentro" da própria área de origem — o Type 3 já é, por definição, um resumo saindo daquela área. Isso significa: com uma única área OSPF (single-area), sumarização de rotas nativas simplesmente não é possível — só existe ABR em projeto com 2+ áreas.

3.3 Virtual Links — evite se possível

Todo projeto multi-área exige que toda área se conecte diretamente à Área 0. Quando isso não é fisicamente viável (ex: fusão de duas redes OSPF distintas, cada uma com sua própria Área 0), o Virtual Link permite "estender" o backbone através de uma área intermediária. Funciona, mas adiciona complexidade e fragilidade ao projeto — a recomendação amplamente compartilhada por operadores experientes é desenhar a topologia física de forma que Virtual Link nunca seja necessário, em vez de usá-lo como solução permanente.

3.4 OSPF em L3VPN MPLS (relação PE-CE) — cuidado com o "Backdoor Link"

Quando um cliente usa OSPF na relação PE-CE de uma L3VPN MPLS, rotas redistribuídas do BGP pro OSPF do cliente viram Inter-Area (Type 3), não External (Type 5) — isso evita problema em sites remotos configurados como área Stub. Mas cria uma armadilha real: a ordem de preferência do OSPF é Intra-Area > Inter-Area > External, independente do custo configurado.

Cenário real do "OSPF Backdoor Link": cliente tem link de 1 Gbps via L3VPN MPLS (operadora A) e link de 100 Mbps comum, não-MPLS, direto com outro site (operadora B) estendendo a mesma área OSPF.

A rota aprendida pelo link de 100 Mbps é Intra-Area; a rota aprendida pelo link MPLS de 1 Gbps é Inter-Area. Mesmo sendo 10x mais lento, o OSPF escolhe o link de 100 Mbps — porque Intra-Area sempre vence, não importa o custo. Correção: recurso OSPF Sham-Link, que faz o caminho MPLS parecer Intra-Area também.

3.5 OSPFv3 (IPv6) — mesma lógica, transporte diferente

RFC 5340 adapta o OSPF pra IPv6. Conceitos (áreas, LSA types, DR/BDR, SPF) permanecem os mesmos — a diferença técnica principal é que o OSPFv3 roda por link, não por sub-rede (múltiplas instâncias podem coexistir no mesmo link via Instance ID), e usa endereços link-local pra formar adjacência, não o endereço global configurado na interface.

4. Boas práticas de ISP — 12 recomendações Avançado

Sintetizado do guia "Boas Práticas para a Implantação do OSPF em Ambientes de ISP", de Leonardo Furtado (Brasil Peering Forum) — referência nacional mais completa sobre o tema, parafraseada aqui com organização própria.

4.1 Mantenha o OSPF dedicado só ao interior da rede

Só 4 finalidades legítimas: transportar sessões iBGP, dar conectividade recursiva pro NEXT_HOP de rotas BGP, transportar sessões LDP (se MPLS), e serviços internos do ISP. Rotas de cliente e rotas externas são responsabilidade do BGP — nunca do OSPF. Erro clássico citado: injetar rotas /32 de assinantes PPPoE diretamente no OSPF. Alternativa correta: agregar o bloco (ex: /22) numa rota estática pra Null0 com tag, redistribuída pro OSPF como External. Limite prático recomendado pela indústria: até 40 mil rotas IGP na tabela, mesmo que o hardware suporte muito mais.

4.2 Projeto hierárquico, estruturado e modular

OSPF é o IGP mais exigente em organização topológica — projeto multi-área exige hierarquia de 2 níveis obrigatoriamente. Camadas de função (Acesso, Agregação, Core, Borda de Serviços) não são só nomenclatura bonita: sem essa organização, sumarização fica inviável e o LSDB incha.

4.3 Plano de endereçamento compatível com a topologia

Bloco contínuo dedicado pra loopbacks, bloco contínuo por área pra links ponto a ponto. Sem esse "encaixe" entre endereçamento e topologia, sumarização no ABR simplesmente não funciona, mesmo em projeto multi-área.

4.4 Configure enlaces ponto a ponto como network type point-to-point

Mesmo sendo Ethernet/fibra, se o enlace conecta só 2 roteadores, defina como point-to-point em vez de broadcast — elimina eleição de DR/BDR desnecessária, reduz entrada no LSDB (menos um LSA Type 2), acelera formação de adjacência e melhora convergência.

4.5 Ajuste a banda de referência

Banda de referência padrão (100 Mbps) faz qualquer interface ≥100 Mbps ter custo "1" — um link de 1 Gbps e um de 100 Gbps ficam com custo idêntico, gerando roteamento subótimo. Ajuste a banda de referência pra capacidade máxima suportada por todos os equipamentos (ex: 100 Gbps), ou ajuste custo manualmente onde o ajuste global não bastar.

4.6 Cuidado com sumarização em backbone MPLS

Sumarizar o bloco de loopbacks pode quebrar LSPs fim-a-fim (L2VPN/L3VPN) e túneis de engenharia de tráfego entre roteadores de Core. Se sumarizar, nunca sumarize o bloco de loopbacks especificamente — considere IP Event Dampening e LSA/SPF Throttling (seção 5) como alternativa ao problema de "falatório" excessivo em vez de sumarização agressiva.

4.7-4.8 Áreas especiais com critério, e evite Virtual Links

Use Stub/NSSA/Totally quando fizer sentido (roteador remoto modesto, muitas rotas externas desnecessárias ali) — não por padrão. Desenhe a topologia física pra que Virtual Link nunca seja necessário; é um recurso de última instância, não de projeto permanente.

4.9 Evite OSPF na relação PE-CE de L3VPN, se puder escolher

É o mais burocrático das opções (rotas conectadas, estáticas, RIP, EIGRP, IS-IS, BGP) — exige processo dedicado por cliente, conversões de redistribuição complexas, mecanismos extras de prevenção de loop (Down Bit, Route Tags), e risco do problema de Backdoor Link (seção 3.4). Às vezes é inevitável por exigência do cliente — mas não é a primeira escolha.

4.11 Não use custo do OSPF pra engenharia de tráfego

Manipular métrica do IGP pra forçar caminho de tráfego é gambiarra histórica que resolve um problema criando outros imprevistos. Prefira MPLS-TE ou SR-TE — tecnologias desenhadas especificamente pra isso, mais flexíveis e previsíveis.

5. Segurança e ajuste fino Avançado

5.1 Autenticação

OSPF suporta autenticação de vizinhança (texto simples — evitar; MD5; ou, em implementações modernas, HMAC-SHA), impedindo que um roteador não autorizado forme adjacência e injete LSAs falsos. Boa prática: sempre autenticar, no mínimo com MD5, idealmente com métodos mais fortes onde suportado.

5.2 IP Event Dampening

Mecanismo de decaimento exponencial que suprime a propagação de eventos de uma interface oscilando com muita frequência (flapping) — em vez de inundar LSA a cada oscilação "on/off", o recurso identifica o padrão e passivamente remove a interface da rede até ela se estabilizar. Mais inteligente que colocar a interface em shutdown manual e reativar depois.

5.3 LSA e SPF Throttling

LSA Throttling controla dinamicamente o intervalo entre gerações de LSA durante instabilidade — primeiro LSA sempre imediato, os seguintes com taxa limitada crescente. SPF Throttling faz o mesmo pro recálculo do algoritmo de Dijkstra — atrasa dinamicamente o recômputo quando a topologia está instável, evitando sobrecarga de CPU em eventos de flapping sucessivo. Ambos ativados por padrão na maioria das plataformas modernas, mas ajustáveis.

5.4 BFD em vez de ajustar Hello/Dead

Detectar falha de link só pelo Dead Interval do OSPF (padrão 40s em rede broadcast) é lento. Em vez de reduzir agressivamente os timers Hello/Dead (o que sobrecarrega processamento do OSPF), a recomendação é usar BFD (RFC 5880) — detecção de falha bidirecional na casa dos milissegundos, sinalizando o OSPF pra convergir imediatamente sem depender do timer nativo.

6. Por que OSPF ainda é relevante Intermediário

É comum ouvir que "OSPF é coisa antiga" — não é verdade tecnicamente. Os argumentos reais pra continuar escolhendo um IGP link-state (OSPF ou IS-IS) num backbone de ISP:

  • Confiabilidade de troca de mensagens — adjacência formal + reconhecimento (ACK) de cada LSA, ao contrário de distance-vector que só "transmite e espera"
  • Escalabilidade real — sem limite prático de diâmetro (diferente do RIP, travado em 15 saltos), desde que respeitadas as boas práticas de hierarquia
  • Convergência muito mais rápida e confiável — mapa topológico completo por área, não "boato" de segunda mão
  • Prevenção de loop naturalmente robusta — decorre diretamente de cada roteador conhecer a topologia real, não de mecanismos remediadores como no RIP
  • Único caminho viável pra MPLS Traffic Engineering e Segment Routing — essas tecnologias exigem obrigatoriamente um IGP link-state (OSPF ou IS-IS) por baixo; não existe alternativa distance-vector pra isso

Em outras palavras: enquanto backbones de operadora continuarem migrando pra arquiteturas MPLS/Segment Routing (tendência que só cresce), o OSPF — ou o IS-IS — continua sendo pré-requisito técnico, não escolha de nostalgia.

7. Configuração de referência — multi-fabricante Intermediário

Cenário: roteador com loopback 203.0.113.1/32 na Área 0, enlace ponto a ponto 10.0.0.0/31 também na Área 0, banda de referência ajustada pra 100 Gbps.

Cisco IOS-XE

router ospf 1
 router-id 203.0.113.1
 auto-cost reference-bandwidth 100000
 network 203.0.113.1 0.0.0.0 area 0
 network 10.0.0.0 0.0.0.1 area 0
!
interface GigabitEthernet0/1
 ip ospf network point-to-point
 ip ospf authentication message-digest
 ip ospf message-digest-key 1 md5 SENHA-FORTE

Juniper JunOS

set protocols ospf reference-bandwidth 100g
set protocols ospf area 0.0.0.0 interface lo0.0 passive
set protocols ospf area 0.0.0.0 interface ge-0/0/1.0 interface-type p2p
set protocols ospf area 0.0.0.0 interface ge-0/0/1.0 authentication md5 1 key "SENHA-FORTE"

set interfaces lo0 unit 0 family inet address 203.0.113.1/32
set interfaces ge-0/0/1 unit 0 family inet address 10.0.0.0/31

Mikrotik RouterOS

/routing ospf instance
set default router-id=203.0.113.1

/routing ospf area
set backbone name=area-0

/routing ospf interface-template
add area=area-0 networks=10.0.0.0/31 type=ptp \
    auth=md5 auth-id=1 auth-key=SENHA-FORTE
add area=area-0 networks=203.0.113.1/32 passive

/interface bridge
add name=loopback

FRRouting (Linux)

router ospf
 ospf router-id 203.0.113.1
 auto-cost reference-bandwidth 100000
 network 203.0.113.1/32 area 0
 network 10.0.0.0/31 area 0
!
interface eth1
 ip ospf network point-to-point
 ip ospf authentication message-digest
 ip ospf message-digest-key 1 md5 SENHA-FORTE

Repare como o comando auto-cost reference-bandwidth (ajuste da boa prática 4.5) tem sintaxe quase idêntica entre Cisco, FRR e JunOS — é um dos parâmetros mais universalmente padronizados entre implementações.

8. Comandos de verificação e teste Intermediário

O que checar Cisco / FRR JunOS RouterOS
Vizinhos/adjacências show ip ospf neighbor show ospf neighbor /routing ospf neighbor print
Banco de dados LSDB show ip ospf database show ospf database /routing ospf lsa print
Rotas aprendidas via OSPF show ip route ospf show route protocol ospf /ip route print where ospf
Interfaces habilitadas + custo show ip ospf interface brief show ospf interface /routing ospf interface print
Estatística de eventos SPF show ip ospf statistics show ospf overview /routing ospf statistics print

Checklist mínimo de "OSPF pronto pra produção":

  • Todos os vizinhos esperados em estado Full (não Init, 2-Way ou Exstart travado)
  • Custo das interfaces reflete a banda real — confira depois de qualquer mudança de banda de referência
  • Loopback anunciado corretamente (geralmente como interface passiva, sem formar adjacência nela mesma)
  • Autenticação configurada e idêntica nas duas pontas de cada enlace
  • Se multi-área: ABR sumarizando como esperado, sem vazar detalhamento de topologia entre áreas

9. Indicadores de operação (KPIs) Avançado

Indicador O que revela Sinal de alerta
Adjacências Full vs. esperadas Saúde geral das vizinhanças Qualquer adjacência fora de Full por tempo prolongado
Frequência de execução do SPF Estabilidade topológica Picos frequentes indicam flapping em algum ponto da rede — revisar Throttling/Dampening
Tamanho do LSDB por área Escala do projeto de área Crescimento descontrolado sem sumarização correspondente
Convergence Time Tempo entre falha de link e rota alternativa ativa Alto — revisar BFD, Throttling, ou dependência excessiva de Dead Interval puro
Nº de rotas IGP na tabela Higiene do projeto (rota externa não deveria estar ali) Aproximando do limite prático (~40 mil) sem justificativa — revisar boa prática 4.1

10. Exercícios práticos Intermediário

Resolva antes de olhar o gabarito.

Exercício 1. Sua rede tem interfaces de 1 Gbps, 10 Gbps e 100 Gbps, banda de referência ainda no padrão de fábrica (100 Mbps). Qual o problema, e qual o comando genérico pra resolver?

Ver gabarito

Todas as 3 interfaces terão custo "1" (qualquer banda ≥100 Mbps satura o cálculo com referência de 100 Mbps) — o OSPF não vai distinguir um link de 1 Gbps de um de 100 Gbps, podendo gerar roteamento subótimo. Solução: ajustar a banda de referência pra pelo menos 100 Gbps em todos os roteadores (auto-cost reference-bandwidth 100000 ou equivalente) — precisa ser consistente na rede inteira, não só num roteador.

Exercício 2. Você tem uma área OSPF única (single-area) e quer sumarizar as rotas pra reduzir o tamanho da tabela de roteamento. É possível?

Ver gabarito

Não. Sumarização de rotas nativas do OSPF só acontece no ABR (Area Border Router), e ABR só existe em projeto com 2+ áreas. Com área única, não há ABR, então não há como sumarizar rota nativa — a única sumarização possível nesse cenário seria de rotas externas, no ASBR, no momento da redistribuição.

Exercício 3. Um cliente L3VPN MPLS tem link de 1 Gbps via sua rede e link de 100 Mbps direto com outro site, ambos na mesma área OSPF. O tráfego insiste em ir pelo link de 100 Mbps. Por quê, e como corrigir?

Ver gabarito

É o cenário clássico de OSPF Backdoor Link (seção 3.4): a rota via L3VPN MPLS é Inter-Area (Type 3), a rota pelo link direto é Intra-Area — e Intra-Area sempre vence, independente do custo. Correção: configurar OSPF Sham-Link entre os roteadores PE, fazendo o caminho MPLS ser tratado como Intra-Area também.

Exercício 4. Um roteador remoto, modesto em capacidade de processamento, tem 1 único link pro resto da rede e recebe centenas de rotas externas desnecessárias vindas da Área 0. Que tipo de área resolve isso, e o que ele passa a receber no lugar dessas rotas?

Ver gabarito

Configurar essa área como Stub (ou Totally Stubby, se quiser suprimir também os resumos inter-área). O roteador deixa de receber LSA Type 5 (rotas externas) e passa a receber uma rota padrão (default) gerada automaticamente pelo ABR — suficiente pra alcançar qualquer destino fora da área, com LSDB muito mais enxuto.

11. Troubleshooting comum Intermediário

Vizinhança presa em 2-Way (nunca chega a Full)

Normal em rede Broadcast quando nenhum dos dois é DR/BDR entre si (2-Way é o estado final esperado entre dois DROthers) — não é bug. Se deveria formar adjacência completa, revisar se network type está correto (ver 4.4).

Vizinhança presa em Exstart/Exchange

Causa clássica: MTU incompatível entre as duas interfaces — o processo de troca do LSDB (Database Description) trava exatamente nesse ponto. Confirme MTU idêntico dos dois lados.

Vizinhança nunca sai de Down/Init

Checar: mesma área configurada dos dois lados, mesma máscara de sub-rede, timers Hello/Dead idênticos, autenticação (se configurada) batendo, e conectividade IP/multicast básica (pacotes Hello vão pra 224.0.0.5).

Roteamento subótimo (caminho "errado" sendo escolhido)

Duas causas mais prováveis: banda de referência mal ajustada (seção 4.5), ou confusão Intra-Area vs. Inter-Area em cenário de Backdoor Link (seção 3.4).

SPF rodando com muita frequência (CPU alta)

Sintoma de flapping em algum enlace, propagando LSA constantemente. Identifique a interface instável (fibra com problema físico é a causa mais comum) e considere IP Event Dampening enquanto o problema físico não é corrigido.

12. Glossário

LSA Link-State Advertisement — unidade de informação que descreve um pedaço da topologia, trocada entre roteadores OSPF.
LSDB Link-State Database — banco de dados local com todos os LSAs conhecidos daquela área; base pro cálculo do SPF.
SPF Shortest Path First — algoritmo de Dijkstra aplicado ao LSDB pra calcular a árvore de caminhos mais curtos.
ABR Area Border Router — roteador com interfaces em 2+ áreas, incluindo a Área 0.
ASBR Autonomous System Boundary Router — roteador que redistribui rotas externas pro OSPF.
DR / BDR Designated Router / Backup — centraliza distribuição de LSA numa rede Broadcast/NBMA, evitando full-mesh.
Área 0 / Backbone Área central obrigatória à qual todas as demais áreas devem se conectar diretamente (ou via Virtual Link).
Área Stub Área que bloqueia LSA Type 5 (rotas externas), recebendo rota default do ABR no lugar.
Área NSSA Como Stub, mas permite ASBR local (usa Type 7, convertido em Type 5 ao sair da área).
Virtual Link Mecanismo pra "estender" a Área 0 através de uma área intermediária, quando conexão direta não é viável.
Reference Bandwidth Valor usado no cálculo de custo (Cost = Referência / Banda da interface) — ajustar é boa prática obrigatória em rede com link ≥100 Mbps.
Cost Métrica do OSPF — quanto menor, mais preferido.
Sham-Link Recurso que faz um caminho MPLS L3VPN ser tratado como Intra-Area, resolvendo o problema do Backdoor Link.
Point-to-point (network type) Tipo de rede OSPF sem DR/BDR, recomendado pra enlaces que conectam exatamente 2 roteadores.
IP Event Dampening Supressão inteligente de propagação de eventos de interfaces oscilando com frequência.
LSA/SPF Throttling Controle dinâmico do intervalo entre gerações de LSA e recômputos de SPF durante instabilidade.
BFD Bidirectional Forwarding Detection (RFC 5880) — detecção de falha de link em milissegundos, complementar ao OSPF.
OSPFv3 Versão do OSPF pra IPv6 (RFC 5340) — mesmos conceitos, roda por link em vez de por sub-rede.

Ferramentas relacionadas

Simulador OSPF

Perguntas da Comunidade sobre OSPF

Adjacência não forma, roteamento subótimo, dúvida sobre áreas especiais? Pergunte pra quem já passou por isso.

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13. Referências

Padrões internacionais (IETF)

  • RFC 2328 — OSPF Version 2
  • RFC 5340 — OSPF for IPv6 (OSPFv3)
  • RFC 3623 — Graceful OSPF Restart
  • RFC 5880 — Bidirectional Forwarding Detection (BFD)

Contexto nacional (Brasil)

  • Boas Práticas para a Implantação do OSPF em Ambientes de ISP
  • Interior Gateway Protocols: OSPF

Conteúdo técnico independente, contextualizado para o cenário brasileiro. Boas práticas citadas refletem consenso de operadores experientes, não obrigação normativa — avalie sempre contra o seu projeto técnico específico.